Exposição em Porto Alegre lembra os vinte anos de morte de Mario Quintana

O poeta Mario Quintana gostava de dizer que foi um menino por trás de uma vidraça, tamanha sua adoração pelos livros infantis, cujas ilustrações coloridas contrastavam com a rotina de sua cidade, a gaúcha Alegrete, tão tediosa que parecia produzir imagens em preto e branco. Pouco disposto a entrevistas, Quintana, que morreu em 1994, espalhou histórias de sua vida ao longo dos textos, que tanto retratavam seu mundo interior como investigavam sua própria história.

Autor de 'Poeminha do Contra' morreu aos 87 anos - Liane Neves/ Divulgação
Liane Neves/ Divulgação
Autor de 'Poeminha do Contra' morreu aos 87 anos


O local é apropriado – o acervo Mario Quintana, sob a gestão da CCMQ, é constituído por mais de 400 documentos, entre fotografias, caricaturas, manuscritos e outros. Essa coleção passa atualmente por um processo de inventário e digitalização, procedimentos realizados pelo Núcleo de Acervo e Memória da Casa de Cultura, para ser posteriormente disponibilizada ao público.
Em lembrança às duas décadas sem o poeta, a Casa de Cultura Mario Quintana nesta segunda-feira, 5, em Porto Alegre, a exposição Saudade: 20 anos sem Mario Quintana, que reúne uma seleção de poemas, fotos, manuscritos e textos, alguns deles publicados no antigo Caderno H do jornalCorreio do Povo.

Mario Quintana nasceu em Alegrete, no dia 30 de julho de 1906, e, com 20 anos, foi para Porto Alegre, onde morou, entre 1968 e 1980, no Hotel Majestic. Publicou mais de 20 livros, sem contar as antologias. O primeiro, aos 34 anos, A Rua dos Cataventos. O último, em 1990, Velório sem Defunto. Com Sapato FloridoPé de PilãoCaderno H,Esconderijos do Tempo, Lili Inventa o Mundo, consagrou-se como poeta do cotidiano e lirismo, e um dos ícones da literatura brasileira.

Poeta, jornalista e tradutor, trabalhou nos Jornais O Estado do Rio Grande e no Correio do Povo (com sua coluna Caderno H). Como tradutor, notabilizou-se com sua impecável tradução de Proust. Traduziu a literatura europeia, como Giovani Papini, Virginia Woolf, Voltaire, entre outros. Morreu em 5 de maio de 1994, aos 87 anos.

Se sua visão da realidade era muito marcada pela nostalgia, Quintana demonstrou em sua poesia qualidades básicas do modernismo, como o humor, a brevidade e o coloquialismo. Em textos mais maduros, atingiu um grau de precisão comparável aos mestres do verso brasileiro, como no famoso Poeminha do Contra, pertencente ao livro Caderno H: “Todos esses que aí estão /Atravancando o meu caminho, /Eles passarão... / Eu passarinho!” – se nos dois primeiros versos predomina uma certa agressividade, essa atmosfera se desmancha nos seguintes.

Mesmo quando tratava de assuntos sérios, como a morte, Quintana descobria uma forma de encerrar a poesia com uma fina ironia, o que não apenas permite uma rápida identificação com o leitor como permite que o tema seja tratado de uma forma nada acadêmica. Depois da estreia editorial, o poeta viveu uma fase de grande estímulo em que sempre procurou manter, em cada livro, uma unidade de composição. Daí o lançamento deCanções, em 1946, e, no ano seguinte, de Sapato Florido, uma coletânea de epigramas, isto é, de curtos poemas em prosa anteriormente publicados na revista Província de São Pedro, da famosa Livraria do Globo.

Em 1948, lançou Espelho Mágico, com alguns quartetos que agradaram a Monteiro Lobato. E a série se encerra com Aprendiz de Feiticeiro, de 1950, seu primeiro volume em que não se prende a um gênero poético em especial, o que fazia até então e que passaria a marcar seu trabalho. Ao mesmo tempo, tornava-se um poeta popular ao publicar textos em uma página literária do jornal Correio do Povo, especialmente por não ser um homem dominado pela fama – “Quem busca unicamente a glória, não a merece”, disse ele, certa vez, em sua coluna. Mario Quintana desafiou o passar do tempo com uma poesia renovadora e definitivamente marcada pelo humor jovem.

Obra poética
A Rua dos Cataventos, 1940
Canções, 1946
Sapato Florido, 1948
O Aprendiz de Feiticeiro, 1950
Espelho Mágico, 1951
Inéditos e Esparsos, 1953
Poesias, 1962
Caderno H, 1973
Apontamentos de História Sobrenatural, 1976
Quintanares, 1976
A Vaca e o Hipogrifo, 1977
Esconderijos do Tempo, 1980
Baú de Espantos, 1986
Preparativos de Viagem, 1987
Da Preguiça como Método de Trabalho, 1987
Porta Giratória, 1988
A Cor do Invisível, 1989
Velório Sem Defunto, 1990
Água, 2011

Livros infantis
O Batalhão das Letras, 1948
Pé de Pilão, 1968
Lili inventa o Mundo, 1983
Nariz de Vidro, 1984
O Sapo Amarelo, 1984
Sapato Furado, 1994

Dez frases:

A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.

A amizade é um amor que nunca morre.

A arte de viver é simplesmente a arte de conviver ... simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!

A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.

E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando a vidas dos insetos...

Esses padres conhecem mais pecados do que a gente...

Há 2 espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e ... os amigos, que são os nossos chatos prediletos.

Há uns que morrem antes; outros depois. O que há de mais raro, em tal assunto, é o defunto certo na hora exata.